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08/11/2006

ESCÂNDALO NOS QUADRINHOS
A Mensagem Subliminar da Mulher Maravilha

por Ernesto Ribeiro

 

 

Como os quadrinhos dos anos 40 tinham um conteúdo radicalmente oposto ao de hoje
– até serem abortados pela criação da Censura –
e quase provocaram a maior Revolução de todos os tempos nos EUA e no mundo.

 

A ORIGEM INTELECTUAL DE UMA HEROÍNA

 

William Moulton Marston, criador da personagem

 

A Mulher-Maravilha foi concebida por um casal: o psicanalista William Moulton Marston (que revolucionou a ciência, contribuindo de forma vital para a base do entendimento neurológico e emocional, hoje possível) e sua esposa Elizabeth Holloway, que lhe inspirou como modelo, em 1941. Outra inspiração dele para a aparência física da personagem foi sua parceira e aluna Olive Byrne, com quem ele teve uma íntima relação de triângulo amoroso com o consentimento da esposa, uma relação poliamorosa. Apesar do uniforme, a heroína não é americana, nem cristã: é uma amazona grega, politeísta pagã, e originária de uma cultura matriarcal, com as mulheres guiando a sociedade desde a família aos negócios, até nas Forças Armadas.

No início, a heroína era desenhada pelo artista co-autor Harry Peter, em histórias escritas pelo próprio psicanalista. O objetivo do doutor era criar uma alegoria para ilustrar sua revolucionária teoria sobre as relações homem-mulher. E ele viu um grande potencial educacional na linguagem das revistas em quadrinhos. Isso mesmo: a primeira de todas as super-heroínas nasceu de uma tese acadêmica. Criada por um doutor em psicanálise, a Mulher-Maravilha é a mais culta de todas as personagens de gibi. A única a ter um criador tão erudito. E também a que possui a mensagem subliminar mais chocante e escabrosa. Mais: é a única criação famosa deliberadamente baseada numa perversão sexual. E quase mudou o mundo.

 

  

"Nós brincamos muito com jogos de amarrar..."

 

Os enredos que o dr. Marston escreveu durante anos tinham uma forte ênfase na submissão física, mental e psicológica dos antagonistas. Os inimigos da Mulher-Maravilha, frequentemente, são amarrados e obrigados a executar ordens. Melhor: as outras amigas amazonas sempre se engalfinhavam em luta-livre ou brincavam de escravidão – possivelmente baseado em suas pesquisas iniciais sobre iniciação de novatas em clubes de garotas ou mulheres. Outro detalhe: o dr. Marston foi o inventor do aparelho detector de mentiras. Isso foi refletido como o laço mágico da Mulher-Maravilha: uma vez preso nesse laço, todo mundo se torna um escravo dela – de corpo, mente e alma.



Não entendeu ainda as idéias do doutor? Pois aqui vai: cientista PhD que inventou o meio de extrair a VERDADE do fundo da alma das pessoas detectando as mentiras, autor de vários livros de psicanálise, autoridade respeitadíssima no meio acadêmico e criador da maior de todas as heroínas (uma das principais divindades do Olimpo dos quadrinhos, que compõe a Santíssima Trindade da DC Comics junto com o Batman e o Super-Homem), William Moulton Marston chocou o mundo (e escandalizou pelo menos metade dele – a população masculina) ao defender a seguinte idéia: o sexo masculino deveria se submeter ao poder do sexo feminino. Somente assim o mundo pode conhecer a Paz e a Humanidade renunciar à Guerra: quando os homens se tornarem escravos voluntários das mulheres. E vice-versa: as mulheres se realizariam seguindo a vontade de seus homens. Cada pessoa deveria se submeter a seu amante, extraindo prazer e auto-realização. Pois somente no exercício recíproco da submissão á pessoa amada é que todos se sentem livres e felizes.

"A única esperança para a paz é ensinar ás pessoas que estão plenas de energia e força de vontade, que gozar é o limite... Só quando o controle de si por outros é mais agradável que a afirmação de si próprio em relacionamentos humanos podemos esperar uma sociedade humana pacífica e estável... Dar-se a outras pessoas, deixar-se controlar por elas, submetendo-se a outras pessoas, talvez não possa ser agradável sem um elemento erótico forte. Por isso a Natureza nos dividiu em dois sexos opostos: para encontrarmos o Paraíso um no outro".

Sobre leitores masculinos, ele mais tarde escreveu: "Dê a eles uma mulher sedutora e mais forte para quem se submeter, e eles serão orgulhosos de tornarem-se seus escravos sempre dispostos!" Finalmente uma pessoa sensata! Enfim um psicanalista perfeitamente lúcido!



 

"Nós somos fortes... podemos lutar... sigam o exemplo dela! "

 

O objetivo de Marston era ressuscitar a sociedade matriarcal em todo o planeta. Usar os quadrinhos para a Revolução Cultural foi o meio mais fácil, influenciando os jovens a assimilar suas idéias revolucionárias sem que os adultos no poder percebessem o que estava acontecendo. Criar a Wonder Woman (Mulher Imaginária) foi um plano perfeito: "Todo povo precisa se guiar por mitos. E os super-heróis são a nova mitologia, como os antigos heróis gregos."

Até que 13 anos depois alguém descobriu. Num belo dia, os poderosos analisaram as mensagens subliminares das histórias que seus filhos andavam lendo e chegaram a uma aterradora conclusão: "O que vai acontecer depois que 2 ou 3 gerações de meninas e meninos crescerem lendo essas idéias revolucionárias e dirigirem a sociedade sob a influência desse psicanalista subversivo?"

A resposta é óbvia: seria o fim do mundo como o conhecemos. E pela vontade do povo. Tudo democraticamente. Depois dos EUA, por tabela, mudaria o planeta. Com o matriarcalismo de volta ao mundo, após 10 mil anos de patriarcado, a Paz reinaria na Terra? O dr. Marston seria o maior revolucionário de todos os tempos. A Mulher-Maravilha seria o maior de todos os heróis, moldando as mentes da Humanidade. E de repente o plano estava exposto, com os velhos adultos horrorizados diante do perigo de perder tudo. Mais uma vez, a mulher é o centro de uma situação extraordinariamente assombrosa, abalando as estruturas da sociedade e provocando o escândalo.

Em 1955, durante a "Caça ás Bruxas" que perseguiu revolucionários na política, literatura, cinema, arte e rock n roll, a perseguição chegou aos quadrinhos. O psiquiatra alemão Dr. Fredric Wertham escreveu o livro A Sedução do Inocente onde acusava os quadrinhos de "corromperem a mente infantil com perversões morais e sexuais", perverter as crianças, induzindo-as à delinqüência, ao homossexualismo e ao comunismo. Batman e Robin seriam homossexuais, o Super-Homem um onanista que nunca come ninguém, além de ser um maldito comunista de capa vermelha com símbolo amarelo pregando a luta de classes: só combatia empresários ricos e defendia só os trabalhadores pobres, principalmente proletários sindicalizados como os operários; e a Mulher-Maravilha passaria uma mensagem sadomasoquista.

O livro caiu como uma bomba na indústria dos quadrinhos. Com a publicação, pela primeira vez as ilustrações e tramas típicas das histórias em quadrinhos da época despertaram a atenção dos pais, cientistas e de outros adultos. Então a paz acabou. Os velhos queriam saber o que seus filhos andavam folheando. Cientes disso, as editoras adotaram a censura dos quadrinhos e as autoridades estabeleceram o Código de Ética das HQs (o infame Comics Code Authority). Neste pequeno tratado, além das regulamentações concernentes a crimes, violência e vocabulário, há uma parte dedicada especialmente ao casamento e ao sexo.

Nem a "sadomasoquista" Mulher-Maravilha escapou dos devaneios de Wertham:

"A conotação homossexual das histórias da Mulher-Maravilha é psicologicamente irrefutável. Para os meninos, a imagem da Mulher-Maravilha é assustadora. Para as meninas, é um ideal mórbido. Se Batman é antifeminino, a atraente Mulher-Maravilha e suas contrapartes são definitivamente antimasculinas. A Mulher-Maravilha tem suas próprias seguidoras femininas. Suas seguidoras são as meninas que gostam de 'festejar', as lésbicas".

Wertham conseguiu promover uma verdadeira caça às bruxas, onde era comum pais furiosos queimarem pilhas de revistas em praças públicas diante dos olhos estarrecidos de seus filhos. É tanto absurdo que nem vale a pena confrontar. Até porque Martin Barker destrói cada um das teorias absurdas de Wertham no ótimo A Haunt of Fears (1984).

Curiosamente, foi revelado recentemente que o próprio psiquiatra Wertham teve relações homossexuais na adolescência. Assim, é impossível deixar de imaginar se toda essa perseguição e censura não passaram de mero despeito e falta de coragem de sair do armário... Mais tarde, Wertham retirou suas acusações e até defendeu os super-heróis, mas era tarde; hoje a DC virou merda. Não temos mais psicanalistas escrevendo gibis cheios de perversões sexuais. Desde os anos 50, todos os heróis são bundões. A indústria e a censura os tornaram o contrário do que foram criados. Super-Homem e Mulher-Maravilha viraram dois debilóides. Batman, um nojento. Os desenhos agora são podres de tão toscos; as estórias, ridículas e sem imaginação. Quadrinhos hoje são lixo. Bom mesmo eram os Anos Dourados.



Imagens: Hacker.BLIG

LINKS:

http://www.omelete.com.br/quadrinhos/artigos/base_para_artigos.asp?artigo=2628

http://en.wikipedia.org/wiki/William_Moulton_Marston

www.bu.edu/alumni/bostonia/2001/fall/wonderwoman/

www.discprofile.com/williammoultonmarston.htm

www.intesiresources.com/cd_29.aspx

www.castlekeys.com/Pages/wonder.html

 

 

edição: Mahajah!ck

 

 

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